As crises do cinema, para músicos


O cinema é uma arte bem jovem. É um xovem de cento e poucos anos. Mas ele já passou por diversas crises de identidade, e continua aí, firme e forte.



Crise 1: o som

O cinema nasceu mudo e calado, por volta de 1895. Os primeiros filmes eram preto e branco, sem som, e bem curtos.


Por volta de 1923 chegou a tecnologia de gravação direta de som. Os filmes agora iam poder falar. Crise, crise, crise. Vão destruir a atuação. Ninguém mais vai prestar atenção no rosto dos atores, nas expressões, nas nuances.




Crise 2: a TV

Na década de 50 se tornou viável produzir filmes coloridos. Não foi tão crise assim, as pessoas adoraram poder ver as cores da vida real na tela.


Mas na mesma época, a TV chegou de vez. Putz, crise total. A televisão chega com tudo, e ela chega em todo mundo. Todo mundo pode ter um televisor em casa. Ninguém mais vai ao cinema. Ferrou.




Crise 3: o vídeo

A televisão usava vídeo, fitas magnéticas, para gravação. O cinema usava filme, o que tecnicamente chamamos de "película", formada por uma base plástica, flexível e transparente, coberta por uma fina camada de gelatina com cristais de sais de prata. Esses cristais reagem à luz, formando a imagem.


A qualidade da imagem capturada em película era muito maior que a qualidade da imagem capturada em vídeo. Mas era muito mais caro filmar (em filme) do que gravar (em vídeo).


Na década de 50, o vídeo ainda era caro também. Lá pela década de 1970, ele se tornou comercialmente viável. Foi quando chegaram no mercado o home video e os aparelhos de VHS. Agora as pessoas podiam ver, e ter, filmes em casa.


Aí ferrou de vez. As pessoas não vão mais ao cinema. As pessoas não vão querer mais gastar dinheiro com ingresso de cinema, sair de casa, enfrentar fila pra ver um filme. Ferrou, ferrou. Morreu o cinema.


Mas ainda tínhamos um trunfo: maior qualidade de imagem.


Mas poxa, é legal ter o seu filme favorito em casa, poder ver a hora que quiser. Mesmo que a qualidade não seja a mesma da telona.




Crise 4: o DVD

Um filme (uma película cinematográfica), por ser um suporte físico e analógico, estava sujeito ao ao desgaste pelo uso e pelo manuseio - riscos, rasgos, e poeira, tudo isso era projetado na telona.


As fitas de vídeo e de som dessa época eram magnéticas. Se você encostasse um ímã, já era.


Aí, em 1997, veio o DVD. Digital Video Disk. Ferrou. Ninguém mais vai ao cinema agora. A qualidade do vídeo digital é muito boa. As pessoas não vão mais notar a diferença entre a imagem na telona e a imagem na TV. As TVs também estão ficando gigantes. Ferrou, ferrou. Morreu o cinema.





Crise 5: o público nacional

Cinema no Brasil depende, desde sempre, de dinheiro público.


Cidade de Deus (lançado em 2002) é considerado o marco por muitas razões. Falando em termos de linguagem cinematográfica, o filme é inovador por incorporar estratégias narrativas de outros formatos e outras indústrias - mais precisamente da publicidade, do vídeo e do videoclipe. Ainda mais precisamente de produtos da televisão.


Uma história interessante, brasileira, contada com uma linguagem que conversa com o espectador, que cria uma identificação por parte do público. E que esteticamente lembrava os filmes de Hollywood. Padrão Hollywood, feito no Brasil, sobre o Brasil. Foi um sucesso.



A ruptura ali foi com o chamado "cinema puro", a arte pela arte. Houve a ideia de que o Fernando Meirelles estava vendendo a alma ao "apelar" para uma linguagem "mais popular", e que aquilo não era cinema. Outros diziam que ele tinha sido genial por ter conseguido fazer um filme que interessava ao público - e mais ainda, ao público brasileiro (algo que só aconteceria bombasticamente de novo em 2007, com Tropa de Elite - assunto para outro momento).